Agora que as férias estão a acabar e está na hora de voltar ao trabalho, vem a ressaca... Por muito que gostemos da nossa profissão e de mudar de ares, a verdade é que pegar no trabalho, deixar o bom tempo para trás e pior, deixar os miúdos para trás, para ir trabalhar, é no mínimo agri-doce. Nós queixamo-nos quando estamos sempre a ser melgadas pelos nossos filhos, e por vezes é um alívio "descansar" no emprego, mas na hora de voltar à rotina, o coração fica apertado! Há combinação pior do que mais trabalho e menos filhos? Acho que não.
Essa volta ao trabalho faz lembrar aquelas pérolas de sabedoria infantil que perfeitos estranhos à nossa família - os colegas de trabalho, os familiares, as "amigas" bem intencionadas - nos podem dizer enquanto mães trabalhadoras, sobretudo quando eles ainda são bebés... (Ou mesmo quando já são crescidos... a carapaça cria-se mas não é de aço):
- “Eu não sei como consegues, eu iria sentir-me super culpada” Culpada de ir trabalhar e deixar o miúdo a chorar no colégio. Culpada de trabalhar quando ele está doente. Culpada de ele ter 5 meses e já estar na creche. Bem, uma mãe trabalhadora já se sente culpada que chegue, e TEM de o fazer, alguém aqui está a dar pulinhos de alegria? Apenas os nossos níveis de sarcasmo na merecida resposta torta.
- "Eu não estou a julgar ninguém, mas eu não seria capaz!" Uma variação da pérola anterior, com um tonzinho sonso, fica óptimo com molho de tomate! Adoro quando me dizem isto, seja sobre o que for, na verdade - deixar o miúdo na escola, deixá-lo a brincar sem chapéu, deixá-lo trepar no parquinho...
- “Eu não poderia nunca deixar o meu filho com uma pessoa estranha.” Não poderias? Vocês estão atarrachados pela anca? Pois poderás, mais cedo ou mais tarde, e até lá, um pouco mais de coração não caía mal.
- “Eu vi o teu filho a chorar na escola, eu acho que ele estava a sentir a falta da mãe...” Isso é para me fazer sentir melhor, ou a seguir ainda me vai dizer que se consegue ouvir daqui?
- “Confias na educadora, não confias?” Não, acho que o meu filho corre o risco de ficar de cabeça partida a qualquer momento, mas eu gosto de viver perigosamente! Amiga, se eu deixo o meu filho no infantário, é porque confio em quem lá trabalha.
- “Acho que fazes muito bem em pores o trabalho em primeiro lugar!” Se calhar não estou a por a carreira ou o trabalho em primeiro lugar, mas alguém tem de ganhar tostão! (Já agora, eu nunca uso essa expressão, acho-a horrível!)
- “Eu dava tudo para estar um dia inteiro sem os meus filhos! Que sorte a tua!” Que sorte a minha! É como a sorte das pessoas que estão numa cadeira de rodas e por isso podem estar sempre sentadas a descansar, não é?! Que sorte a delas! Queres ficar com o meu trabalho, queres? Todos os dias? Trocamos e logo falamos! Ou não.
- "Estás com um ar tão cansado!" Ah, obrigada pelo reparo, assim sinto-me logo mais leve e fresca!
- " As crianças seriam tão mais felizes sempre com as mães!" Pois seriam, ou talvez seriam igualmente felizes a aprender coisas novas, com outros amigos, pessoas diferentes... O meu filho é feliz sempre, porque é que as pessoas insistem em criar essa culpa!?
- "Podes sempre trabalhar mais tarde, quando já estiverem a dormir". E eu, não caio para o lado?
É que nunca esqueçam que uma mãe trabalhadora tem dois trabalhos a tempo inteiro e recebe metade do salário!