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Mulher

Normalizar a NÃO Amamentação!

Por Soraia Pires

Este título pode ser um pouco polémico, mas talvez seja bom para vos fazer ler uma informação que considero extremamente importante.
Muito falamos nós da amamentação, da sua importância, dos benefícios e vantagens do aleitamento materno para a saúde física, mental e emocional do bebé, da maior rapidez no retorno à forma física da Mulher e da facilidade nas questões económicas e de logística do casal.
Tenho formação em aleitamento materno e passo imenso tempo a aconselhar e a partilhar estratégias para o promover. Não me considero uma talibã da amamentação, nunca considerei! Mas acho que é de conhecimento comum que amamentar possui imensas vantagens para a Mãe e bebé e quem nos diz isto é a ciência, não são boatos, nem textos de opinião (como será um pouco este, mas com a devida, espero eu, validade para vós). Por outro lado, também acho que, cada um sabe de si e se, apesar de estar informado e consciente, a opção é não amamentar, deve ser tão respeitada quanto a de amamentar.
Cada um é livre de fazer o que quiser, nenhuma mulher pode ser considerada pior mãe porque decide não amamentar. Não faço qualquer tipo de julgamento e esta pessoa será sempre bem-vinda e respeitada nas minhas consultas.
Até aqui tudo bem, sou uma profissional espetacular, sou bem formada como pessoa, tenho os devidos cuidados com as opções dos outros e respeito o que cada um decide! Devia merecer um prémio! Não era? Mas…
Outro dia, numa conversa com umas amigas (olá Ladies), uma delas pôs-me o dedo no nariz!!!! Disse que nós somos tão preocupados em promover o aleitamento materno que, para além de alguns profissionais se esquecerem de que as mulheres devem poder escolher não amamentar, seja pelo motivo que for e isso tem que por nós ser respeitado, uma vez que é o corpo delas, é o filho delas, nos esquecemos de apoiar quem não pode, por algum motivo, amamentar. Pelo que percebi, a esta pessoa em concreto, alguém a deixou preparar-se para a amamentação. Ela, com toda a dedicação frequentou aulas e encheu-se de motivação para levar esta tarefa a bom porto. Quando, finalmente, a filhota está cá fora, alguém, extremamente parco em explicações e com a atitude robótica que, por vezes nos caracteriza (até achamos que estamos a fazer o melhor, mas não o explicamos devidamente e as pessoas não adivinham!) lhe diz “a senhora toma medicação para epilepsia, é mais seguro não amamentar! Vamos tratar dos procedimentos para a cessar a produção de leite”. Ela confessou que ali se sentiu sem chão e que carregou até há pouco tempo, desnecessariamente, uma culpa e um medo enormes, por pensar que o desenvolvimento da sua filhota não iria dar-se de forma saudável nem natural. Uma vez que tanto lhe apregoaram que o leite materno é a alimentação divina, e na hora de optar por outro tipo de paparoca para a bebé, o apoio foi nulo!
Este testemunho, leva-me onde quero chegar. Cingindo-me a este contexto, tenho que dizer que, mais importante ainda do que respeitar a opção da mulher que decide não amamentar é apoiá-la quando a sua opção seria até dar de mamar aos seus filhos, mas, por algum motivo, não lhe é possível.
Da mesma forma que uma mulher se prepara, por exemplo para o parto, prepara-se para a amamentação. Cabe a nós, profissionais de saúde, ter a sensibilidade para esclarecer, acompanhar e apoiar os nossos pacientes, seja em que circunstância for. Com a correria das vidas pessoais e profissionais, com a procura frenética pela prática baseada na evidência científica, com a constante mudança de paradigmas, com a necessidade de afirmação profissional, com a competição, poderemos em determinado momento esquecer o que realmente deve importar-nos, secundarizamos o que deve ser o nosso foco, o que realmente deve mover-nos, o que realmente merece o nosso respeito e atenção: OS NOSSOS PACIENTES!
Faço deste texto um pequeno mea culpa (sim, pequeno, porque, na maior parte das vezes não perco de vista o meu verdadeiro foco e tenho orgulho nisso!) e deixo este alerta para profissionais de todas as áreas, mas em especial, para os que trabalham nesta, pelo contexto. Não percam a sensibilidade nem a empatia. Saber colocar-nos no lugar do outro, sem estar a pensar no que nós faríamos ou diríamos, mas respeitando as suas opções, faz de nós os melhores profissionais que alguém pode desejar.
No que diz respeito à amamentação especificamente, se é certo que há muitos movimentos que visam a normalização da amamentação, e muito bem, não vamos ostracizar as mulheres que, pelos seus motivos, não querem ou não podem amamentar.
Obrigada a quem me fez refletir. Obrigada por me desafiarem a melhorar a cada dia!
Um beijinho,
S.

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1 comentário(s)

Andreia Cunha21 de Fevereiro, 2018 às 15:26:38
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Sem duvida um excelente post... realmente a sociedade não esta preparada para aceitar mulheres/mães que opto por não amamentar, são sempre criticadas e acabam por arranjar desculpas para justificar o não dar de mamar porque sabem que dizendo a verdade serão recriminadas, é triste porque numa altura com tantas mudanças nas nossas vidas precisamos é de apoio de compreensão e não de alguém que nos aponte o dedo... fui Mãe recentemente (dois meses) e estou a amamentar em exclusivo porque sempre foi muito fácil para mim, não sei o que é ter dores na amamentação mas compreendo que num momento tão frágil para nós ainda ter que passar por uma experiência que deveria ser boa passa a ser má e justifica-se isso? para mim não mesmo dando leite adaptado será sempre o melhor que queremos para os nossos filhos e não podemos deixar que nos julguem por não fazer o que seria esperado... saliento que no hospital onde nasceu a minha filha os profissionais falaram abertamente sobre esse tema, falaram directamente que o melhor é amamentar mas que essa era sempre uma decisão nossa, ouve quem fica-se chocado com essas palavras mas confesso que admirei a coragem dos profissionais por admitir que a nossa vontade e aquilo que nos faz sentir bem é o mais importante nesta fase da nossa vida... Parabéns pelo post deveriam haver mais profissionais assim com essa abertura para o bem de todas as recém-mamas.

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