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O Pai Anónimo | Profissão: Educadora

Por O Pai Anónimo

Atento, como sempre ando, às coisas intrigantes deste mundo, ocorreu-me aqui há tempos esta questão fracturante: Por que carga de água nunca se vê nenhum artigo ou livro ou entrevista ou o diabo, sobre a educação das criancinhas, em que o especialista seja um(a) educador(a) de infância? É um verdadeiro mistério. Há sempre um psicólogo de serviço, ou pediatra, ou uma equipa de investigadores algures numa universidade reputadíssima, mas nunca vi nada no meu mural do FB (há outro sítio para ver notícias?...) com um título do género “«Umas galhetas na tromba podem ser produtivas» – Sílvia afirma que hoje em dia anda-se demasiado com os putos ao colo.”
É que é realmente interessante. Nunca se deu tanta importância aos putos e à escolinha para onde vão. O drama que é levar a pequena Mafalda no primeiro dia, não vá ela estranhar. Fazem-se uns ensaios em que a mãe tira uns dias de férias para ir levando o Salvador “aos bocadinhos”. Mas depois ninguém se importa que a educadora, que vai passar muito mais tempo com o puto do que os pais alguma vez vão estar ao longo do ano, receba - geralmente – uma mixuruquice de salário. E ao mesmo tempo que os pais esgadanham-se todos para saber se a educadora é boa, ou então dispõem-se a fazer 50km ida e volta diários “porque ao menos lá eu sei que a educadora tem muito jeito com os miúdos”, a profissão tem tanto status social como ser calista.
Esta é que devia ser considerada uma profissão de desgaste rápido. Senão vejamos. Primeiro, educadora a sério não tem apelido. Só tem nome próprio. Ao menos as professoras do ensino básico têm atrás o prefixo “professora”. Agora lá na escolinha é a Catarina, ou Cátia, ou Inês. Pode ter 50 anos e uma artrose da anca que vão sempre referir-se a ela como se fosse uma adolescente. Caminham sobre brasas; um passo em falso e a mãe passa a achar que a “a Carla parece-me pouco cuidadosa com a Francisca… não sei…”. Um sorriso mal medido, um esgar mal disfarçado perante a observação que o idiotinha do Manel “é um miúdo muito sensível… precisa muito de validação…” e está o caldo entornado.
Depois essa tarefa ciclópica que é saber o nome dos putos todos. E das mães. Chiça. Se fizessem um teste anti-doping era uma sangria. E saberem sempre tudo. “Mamã, o Dinis fez um cocó muito mole hoje…”. É claro que bem sei que elas aplicam o mesmo princípio do tipo que escreve os horóscopos no jornal. Quando é preciso dar informações, especialmente por escrito, a coisa vai sempre tipo “A Pilar é uma criança muito curiosa; gosta de aprender e brincar com os colegas, mas por vezes também prefere ficar sozinha. É simpática, mas ocasionalmente faz algumas birras”. Dá para tudo, meus caros, do Manel à Clarinha, do Gustavo à Carlota.
Mas apesar de as educadoras (houve uma vez um educador, há muito tempo, mas fugiu da cidade e nunca mais voltou) serem quem está mais tempo com os putos, dizia eu, ninguém lhes pergunta nada. O pediatra tem sempre umas postas engatilhadas para explicar como é que se faz com as refeições, mas ninguém pergunta à educadora como é que o pequeno Simão, que em casa só faz porcaria com o jantar e só come umas garfadas se for a ver o Miles do Futuro ou com o telemóvel do papá, na escolinha malha a comida toda num ai. Nem ninguém pergunta como é que a Beatriz, sempre com “muita personalidade e muito teimosa” em casa, na escola baixa a bolinha. Aliás, novamente, estes pequenos milagres são vistos com desconfiança, senão incredulidade, deixando no ar a dúvida sobre se a Sílvia não estará, afinal, a regar.
Acresce que educadora a sério tem de estar sempre bem-disposta. E ter montes de ideias e achar super-divertido fazer cenas com cartolina e garrafas de plástico usadas. E sempre com um sorriso, super-atenta a tudo o que os pais estão a dizer e mostrando interesse. “Não… a Sancha na turminha está sempre bem… não, não chora, nem pede colo… Se dorme bem a sesta? Sim, dorme…” E é uma mestre da diplomacia. Aliás, elas é que deviam ir para Genebra negociar tratados de paz. Já repararam na forma como uma educadora é capaz de dizer “sim… o Duarte era um bocadinho malandro… mas nós conversámos sobre isso, não foi Duarte?...”
Voltas a fazer isso e acabas a cuspir plasticina pelo nariz.

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15 comentário(s)

s20 de Abril, 2016 às 21:03:54
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Só para dizer q adorei. OBRIGADA. Já partilhei. E sim fazemos muito mais q tomar conta de crianças, fazemos parte de um universo trabalhoso e maravilhoso q infelizmente mto poucos reconhecem. 😊

s20 de Abril, 2016 às 21:05:47
Responder

Só para dizer q adorei. OBRIGADA. Já partilhei. E sim fazemos muito mais q tomar conta de crianças, fazemos parte de um universo trabalhoso e maravilhoso q infelizmente mto poucos reconhecem. 😊

kiki20 de Abril, 2016 às 21:08:38
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Adorei sou educadora e conheco mto bem esta realidade. Aprende se a viver e a estar no meio de tudo isto.

Lourdes Cortes Rocha20 de Abril, 2016 às 23:33:38
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Sou avó. Antiga. Autoritária. Durante 38 anos tive direito ao titulo de prof. Tem toda a razão, não poderia ter descrito melhor a realidade...Eu, tinha uma teoria que chocava muito os meus colegas: aos 3 anos tiravam-se os meninos aos pais, mandavam-se para a Suiça e regressavam aos 18 para educar os pais. Porquê a Suiça? Trabalhava numa zona de forte imigração para a Suiça e tinha muitos alunos de 12/13 anos "regressados". Que ficavam chocados com o comportamento dos colegas locais. E ainda mais com o comportamento dos progenitores destes. Mas há esperança, embora chateiem até ao infinito as educadoras e as professoras, em casa vão resolvendo as coisas da forma mais "repressiva" que se pode imaginar, com muito mais lamparinas do que seria suposto. Comportamento tipo Dr Spock, o guru da minha geração. Porque não há educadores ou há pouquíssimos (eu, conheço 2 e neste momento não exercem como...)? Porque é uma profissão "mal vista" para homens!!

Rute Boal21 de Abril, 2016 às 00:50:36
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Texto fabuloso! Tão assim! Com humor tudo fica mais leve!... Vou partilhar!

Cátia21 de Abril, 2016 às 00:52:29
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Obrigada pelas suas palavras..deu-me força para não desistir..um bem haja!

Cláudia21 de Abril, 2016 às 09:52:26
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Aaahahahaha, adorei! Muito bom e tão real, confesso que nunca tinha pensado nisto (o que só vem reforçar a coisa).

Elsa21 de Abril, 2016 às 22:48:21
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Realista. Concreto. Objetivo

maria22 de Abril, 2016 às 21:55:33
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Gostei pena que nao faça referēnçia as auxiliares ...

FMCARS25 de Abril, 2016 às 20:58:31
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É bem verdade tudo isto, mas como reparam O Educador (HOMEM) ainda passa por mais desconfianças, infelizmente!

auxiliar 26 de Fevereiro, 2017 às 10:52:18
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Completamente verdadeiro!!!! Tem de se dar mais valor a está profissão. Mas não se esqueçam das auxiliares que apoiam as educadoras Nós também fazemos muito .... Também ensinamos, limpamos, estamos no refeitório e nos recreios, para o ralhete e colo.... Damos muito de nós e recebemos o salário mínimo.... Também somos novas e velhas.... E eu amo o meu trabalho Recebo uma ninharia mas tenho o reconhecimento das educadoras, dos pais e o mais importante dos meus meninos.

linda28 de Junho, 2017 às 19:43:59

Pois mas quem n é reconhecido pelas colegas educadoras q se acham melhores q as auxiliares,qd n fazem nem metade do q as auxiliares fazem . essas sim deveriam ter realmente o seu devido valor e muitas vezes são tratadas como o nome trata AUXILIAR qd na verdade são sim as auxiliares q têm todo o trabalho e os louvores sao dados á educadora

Maria César 21 de Abril, 2017 às 00:58:31
Responder

Muito bom, temos profissão que desgasta e tão pouco valorizadas e remuneradas.... Gosto muito do texto. Parabéns...

Maria Carvalho22 de Abril, 2017 às 14:23:01
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Adorei é pura realidade bem haja para os educador

Rudi 22 de Abril, 2017 às 14:29:03
Responder

Sou educador e eu próprio não descrevia melhor a nossa profissão. Um bem haja a todos os educadores é uma profissão desgastante mas para quem faz com gosto é muito gratificante

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