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Me too | A mim também

Por Inês

#metoo - arrisco a dizer que terá sido a hashtag, o tópico do ano.

A Revista Time anunciou a sua "Pessoa do Ano". Se no ano passado foi inevitável engolir o Trump como pessoa do ano, pelas piores razões (com direito a corninhos subversivos e tudo), este ano a pessoa do ano é o colectivo e cada uma das mulheres que a partir da sua eleição e o infame episódio do "grab them by the pussy", começaram a quebrar o seu silêncio e puseram cá fora as acusações devidas a homens que abusaram da sua posição de poder ou simplesmente do seu género e assediaram ou abusaram dessas mulheres. Trump incluído, num rol de celebridades e cidadãos comuns.

O tópico #metoo, na sequência de outros anteriores como a #womensmarch ou #pussygrabsback logo de inícios de Janeiro, mais do que marcar uma posição, incitava à quebra do silêncio, dava coragem a outras mulheres para porem a boca no trombone e partilharem as situações em que também elas, também todas nós, fomos vítimas de crimes contra a nossa liberdade pessoal, liberdade sexual, honra e dignidade, enfim, crimes ou atentados à nossa pessoa, por motivações sexistas, misóginas, ou de abuso de poder. 

Infelizmente, todas as mulheres têm pelo menos um triste episódio para contar em que, invariavelmente, um homem se sentiu no direito de infligir à mulher um determinado comportamento abusivo, tendo como base o facto de ele ser um homem e ela uma mulher.

#metoo

Eu também. Eu também tenho vários episódios destes na minha vida, dos incontáveis piropos de trolhas, aos tarados que o sacaram cá para fora no meio da rua, quando eu era criança a caminho da escola, à porta da minha casa quando eu era adulta. A homens que tinham mais que idade para ter juízo e no momento em que se cruzavam comigo na rua, me apalpavam ou atiravam um "comia-te toda!", tivesse eu 13 ou 33 anos. Comentários jocosos de colegas de profissão, de amigos, entre mulheres. As mulheres também são sexistas, machistas, por vezes misóginas. Eu também me condiciono por conta do meu género, por exemplo, eu não corro sozinha à noite por cautela, para não arriscar ser agarrada nas ruas desertas que me servem de percurso, pensamento que nunca passaria pela cabeça do meu marido. Porque eu sou uma mulher e infelizmente essa cautela vai-se alojando inconscientemente. Não devia, mas infelizmente faz parte da nossa vida.

#metoo

Creio que o episódio mais paradigmático, mais grave e marcante que me aconteceu, foi um ao qual felizmente eu não preciso de dar voz apenas agora, porque assim que aconteceu armei um banzé que pôs logo tudo em pratos limpos, mas fica para sempre a surpresa, o ataque, a humilhação, a necessidade de defesa dos meus direitos e da minha dignidade.

Estava eu no supermercado, aos 8 meses de gravidez, e fui pagar as minhas compras. Dirigi-me à caixa que dá prioridade a grávidas, cheia de pessoas que não tinham qualquer limitação, mas que tinham escolhido engrossar aquela fila, devendo ter consciência de que deviam dar prioridade se fosse caso disso. E foi. 

Eu aproximei-me da menina da caixa, pedi prioridade e as pessoas que já estavam a ser atendidas à minha frente na fila eram um homem e a sua mulher, na casa dos 50. Sem qualquer deficiência ou limitação. Já estavam a ser atendidos, eu nem lhes passei à frente... Começou logo a mulher com a tirada absolutamente deplorável do "Ai, gravidez não é doença, não há necessidade." Por acaso havia necessidade porque eu estava a carregar uma barriga de 8 meses há meia hora e cada segundo de pé, parada, pesaria ainda mais sobre a minha bexiga cheia e as minhas costas doridas. Mas mesmo que eu estivesse fresquinha como uma alface, é o meu direito e eu estava na fila que me dava prioridade e ninguém tem absolutamente nada a ver com isso. 

Foi o que eu respondi: "Desculpe, mas esta é a fila com prioridade para grávidas e eu preciso de usar esse direito." 

Então, entrou em acção o homem, que me atirou com desdém um "Agora tás aqui, mas na altura não te custou fazê-lo"

Parou tudo. Eu senti-me tão ofendida, tão humilhada, tão invadida na minha intimidade, que parou tudo ali. Virei-me para ele e perguntei-lhe imediatamente o que tinha dito, como é que é? "Ah, pois é!" confirmou. Atirei-lhe logo que não admitia que me falasse assim, virei-me para a menina da caixa, perguntei se ela tinha ouvido e disse-lhe que chamasse o segurança imediatamente, que queria apresentar queixa. Que queria que ele me desse o seu nome e identificação já, que eu ia dali para a polícia apresentar queixa, que era inadmissível, que não me podia dizer uma coisa daquelas! Eles ficaram surpreendidos com a minha reação, começaram a balbuciar, a despachar-se, a dizer que não era caso para tanto. A menina da caixa a pedir que eu me acalmasse, que toda eu tremia e latejava.

Era caso para tanto, sim. Como é que aquele sujeito, que tinha quase idade para ser meu pai, se vira para mim, uma mulher ostensivamente grávida, na casa dos trinta, livre e autodeterminada, e se atreve a tecer considerações públicas sobre a minha intimidade, a minha sexualidade?! Não admito, não lhe admiti. A sorte deles foi eu estar presa às minhas compras e eles se terem raspado dali para fora de fininho. Quando o segurança chegou já eles lá não estavam. 

Fiquei banzada, o Miguel até deve ter dado saltos na barriga com o shot de adrenalina que levou. Grávida de oito meses e a ter de me opor sozinha a uma merda daquelas, em pleno supermercado, exercendo um direito que me assiste. Ainda hoje, eu só espero que de cada vez que àquele sujeito lhe passar pela cabeça dizer destas a outra mulher, ele se lembre do meu rosto furioso a chispar em cima dele e se refreie, não vá aquela nova mulher ser outra "das que não se fica".

Não nos podemos deixar ficar, não podemos deixar passar. #metoo

 

(Esta foto foi tirada no dia 21 de Janeiro, com o meu gorro cor-de-rosa, dia da primeira Womens march)

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