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Mãe

Mãe Bio-Lógica | Parto Natural e humanizado

Por Linda Barreiro

“Vou parir e volto já”. Digo isto com a mesma leveza de quem pede um “café e um copo de água”, mas este podia perfeitamente ter sido o slogan da história do meu parto.

Eu queria um parto natural e humanizado, o meu marido também. O meu marido queria um parto em casa, eu queria um parto fora. Até podia não ser num hospital, mas ter o meu filho em casa é que não. Não estávamos de acordo. Quando pesquisava na internet sobre parto humanizado, a informação era parca e desatualizada, mas não desisti de aprofundar a questão e foi precisamente aí que surgiu a opção da água. O parto na água encaixava de forma perfeita na minha concepção e na minha filosofia. E foi enquanto investigava sobre parto na água em Portugal que descobri a Dra. Radmila.

E numa tarde de Setembro rumámos até Cascais à clínica dela. Esse dia foi apenas para nos conhecermos, a ela e à parteira, uma alemã de olhar doce e rosto delicado. Falámos sobre nós e sobre as nossas expectativas, o objetivo dela era conhecer-nos e saber as motivações que estavam por trás da nossa decisão de ter o parto na água. Lembro-me perfeitamente que uma das perguntas que eu lhe fiz nesse dia foi: “e se alguma coisa, por acaso, correr mal?” E ela, peremptória na resposta, que parecia estar já na ponta da língua, retorquiu: “Linda, se estás já a pensar que alguma coisa pode correr mal, então não vens para aqui. Isso é partir de um pressuposto errado.”

Aquelas palavras, ditas com aquela firmeza que tanto a caracteriza, deram-me um alento incrível. De facto não tinha por que não correr bem. Uma obstetra experiente que já tinha realizado mais de uma centena de partos na água, que tem uma taxa de cesarianas muito baixa, que defende que o parto é um momento perfeito de comunhão entre a Mulher e a Natureza, só podia merecer a minha máxima credibilidade.

Esta mulher acredita no parto como um processo fisiológico e natural, como algo perfeito e completo e, como tal, defende o mínimo de intervenção médica possível, sem no entanto descurar o bem-estar da mãe e do bebé. Uma pessoa que ao longo das consultas, na gravidez, trabalha a parte da confiança como ninguém, ajudando a mulher a chegar ao parto com uma sensação de força e confiança, em si e no seu corpo.

Através do exame físico, mais tarde fiquei a perceber, ela chega aos nossos anseios e medos e ajuda-nos a trabalhar alguns aspetos, ao longo do tempo, para depois podermos soltar, da melhor maneira, um Ser de dentro de nós.

O meu marido e eu chegávamos a um consenso e decidíamos que queríamos ter ali o benjamim da nossa embrionária família. Conhecemos a Casa de Parto, como é designada, no rés-do-chão da moradia onde funciona a Clínica da Mulher. Um cantinho confortável e aconchegante que podia ser a nossa casa. Lá dentro todas as comodidades necessárias: uma pequena cozinha, uma piscina para dar à luz, banco de partos, bola de pilates, duas camas e cor, muita cor que dava vida àquele ambiente acolhedor e familiar, ideal para abraçar uma nova criatura!

A nova criatura portou-se à altura cá dentro, nasceu antes 2 dias das 40 semanas, cresceu bem e, sobretudo, deu-me o último mês para poder descansar e recuperar dos anteriores 8 a trabalhar! Às 9h do dia 03/02 alguma coisa soava cá dentro enquanto me preparava para ir para mais uma aula de Yoga. Desvalorizei, no entanto, e segui a minha manhã calma e tranquila. Fui tomar o meu pequeno-almoço, e embora com algumas reservas, não estava certa de que fosse aquele ainda o momento. O meu marido já preocupado pedia que eu ligasse à médica, mas eu aguardava... Um episódio de sangue na casa de banho deu o alarme, agora sim era tempo de fazer a chamada. No entanto eu sentia-me bem. A Radmila ordenou-me que fosse para Cascais. Ainda assim fizemos tudo sem stress (tínhamos as malas prontas há 1 semana). Tomei o meu banho, arranjei-me e arrancámos perto das 11h30. O carro seguia a uma velocidade de 150km/h, quem conhece o meu marido sabe que ele não é de grandes velocidades. Eu permanecia calada, a suportar a pontada que vinha apenas no momento da contração e a tentar perceber o espaçamento entre as mesmas. Já estavam a acontecer de 3 em 3 minutos, aquele era o dia, sem dúvida!

Entrei às 12h na Clínica e fui para o CTG, já estava a meio do trabalho, com 5 dedos de dilatação. A médica mandou encher a piscina e chamou a parteira. O meu pequenito já estava a pedir para vir ao mundo e estava tudo a acontecer de forma tão rápida que eu não queria acreditar...

Desci cerca das 12h30 para a Casa de Parto, enquanto aliviava com exercícios e movimentos na bola de pilates, recebia massagens da Naturopata, que bem que soube! A parteira chegou, a mesma alemã que conheceramos em Setembro, um doce de pessoa de seu nome Uta. Consegui colocar em prática tudo o que aprendera no Yoga: as respirações, os exercícios favoráveis à descida do bebé e, sobretudo, a minha concentração e a conexão com o meu bebé conforme a médica tanto me dizia. A união das energias entre Mãe e Filho fortaleciam uma ligação que começava a ganhar forma após o rompimento de uma membrana.

Entrei na água às 13h30, as águas rebentaram de seguida. Passadas 3h tinha o meu mais-que-tudo cá fora. Foi curto o tempo de trabalho de parto efetivo, mas longa a espera. Foram 3 horas sentidas, não tinha sequer a noção de quanto tempo tinha passado. Durante esse tempo pude comer (pouco, a fome não era muita), pude ouvir música, agarrar-me aos braços do meu marido a fazer força e esteirar-me para trás para relaxar após cada contração. A água ajudou a suportar a dor e a não sentir o peso real do corpo. Não havia epidural, já sabia, e não havia forma de voltar atrás, também estava ciente disso. Os partos na água não permitem a administração de epidural. Portanto quando me perguntam se eu não senti a necessidade de a pedir a resposta é: “não”, porque esse cenário nem sequer se colocava.

Sentia que estava no caminho certo, porém sem avistar o seu fim. A meio lembro-me de pensar se seria ou não capaz... As contrações apertavam cada vez mais e a cabeça do miúdo já estava a aparecer. Tive de sair para fazer o descanso da água (não se pode estar na água muito mais do que 2h/2h30 seguidas). E foi só aí que eu senti o verdadeiro peso do meu corpo, que percebi o quão cansada estava, o quanto me sentia pesada, sensações que a água tinha mascarado nas 2h30 anteriores. E o miúdo, esse, estava cada vez com mais pressa...

Foi de tal forma que passados 10 minutos de descanso, quando a médica disse que já podia voltar para a água, eu já não fui capaz. E o miúdo nascia ali, numa estranha posição que eu inventei, e após algumas repetições da frase: “mais força, mais força, Linda, tu tens mais força!”. E o berro dele calava o meu grito e o choro dele fazia descer as lágrimas no meu rosto. E foi a maior explosão que se deu cá dentro: um fogo de artifício de alegria, emoção, amor e gratidão. E eu ainda estava longe de acreditar que aquele Ser tinha saído de dentro de mim! Era uma sensação de potencia e de poder que tomava conta de mim e uma voz que me dizia, cá dentro baixinho, que tinha conseguido, que tinha sido capaz! Custou, sim, não minto nem estou aqui para esconder nada: custou, meeeeeesmo, muito, mas no final tudo valeu a pena! Posso dizer que tive sorte, também, porque tudo aconteceu de forma muito rápida, mas essa sorte também apareceu no seguimento de um caminho bem trilhado, desde a gestação até ao nascimento.

O bebé foi-me dado imediatamente e colocado no peito e permaneceu no contacto pele a pele comigo, preso pelo cordão umbilical. Nos minutos seguintes o meu filho mamou. A parteira e a médica saíram e deixaram-nos aos três sozinhos ali, a desfrutar daquele momento único e irrepetível nas nossas vidas. O cordão só seria cortado quando parasse de pulsar, pois nos partos humanizados entende-se que a cessação do vínculo só termina nesse momento. Isto só aconteceu 1h depois do parto e foi o meu marido que cortou o cordão. O bebé foi pesado e vestido e eu fiquei a expulsar a placenta, outro parto portanto... Um bocado menos doloroso, vá...

Descansei um pouco com o meu filho nos braços e o meu marido em abraço e às 19h estava no carro pronta para regressar a Lisboa. Claro que este regresso a casa só foi possível porque o meu parto não foi medicalizado, não houve epidural, não estive com soro, nem houve qualquer intervenção ou procedimento que requeressem que eu fosse supervisionada nas horas subsequentes. No entanto no dia seguinte fui vista pela parteira, em casa, numa série de mais 3 consultas de apoio domiciliário que faziam parte do plano de (pós)-parto.

A minha médica explica muito bem isto: “Nós, os médicos, aprendemos a controlar o parto para prevenir possíveis problemas. Encaramos o parto como algo que pode trazer perigo. Perdemos, ao longo dos anos, a confiança no parto como um processo fisiológico e natural. Por isso, vamos ter de reaprender a ver o parto como algo perfeito e completo, com grandes capacidades de auto-regulação. Vamos ter de confiar no processo em si, sem perder de vista o bem-estar da mãe e do bebé. Vamos ter de aceitar que quanto menos intervirmos no processo, desde que tudo esteja a decorrer dentro do previsto, melhor ele decorre e menos problemas surgem.”

Para nós tudo tinha corrido como previsto e da forma mais natural possível, que era o que queríamos. Eu sentia-me muito cansada, sim, exausta, mesmo. Mas a ideia de ir para casa ajudava a recarregar o pouco da energia que ainda me restava. Às 19h30 o meu marido parava para ir buscar sushi e eu com o bebé no carro, à porta do Monumental, a chover torrencialmente. Que cenário tão estranho! E o meu menino ali, a dormir ao meu lado, parecia um anjinho! E eu ainda permanecia incrédula.

Chegámos a casa, a minha mãe chegava do Norte para conhecer o seu primeiro neto e o meu irmão aparecia pouco depois, de surpresa, para abraçar o seu novo sobrinho. A primeira noite foi uma emoção. Nós na sala todos em volta do menino, pequenino, que dormia no sofá perto de nós envolto numa mantinha...

Eu tinha a sensação de que tinha saído de casa de manhã, como noutro dia qualquer, mas regressava com um bebé nos braços. Uma ternura! A adrenalina desse dia estava à flor da pele. Apesar de cansada eu não tinha sono nem queria dormir. Fui para a cama muito tarde, queria eternizar aquele dia, o mais longo das nossas vidas!

A placenta do nosso filho foi-nos entregue e o meu marido devolveu-a à Natureza um dia depois do nascimento. Os restos da bolsa em que o meu filho esteve envolto durante 9 meses jazem junto a uma árvore do Parque Eduardo VII, em Lisboa. E assim se começou a escrever a nossa história!

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2 comentário(s)

Reina Freire19 de Janeiro, 2017 às 16:19:45
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Boa tarde. Gostei mesmo muito deste post, e agradeço lhe por ter partilhado a sua experiência. Gostava de saber se poderia dizer (sem querer ser inconveniente) os preços "associados". Muito obrigada pela sua partilha E muitos parabéns.

Linda02 de Julho, 2017 às 08:32:34

Olá, Desculpa mas só hoje vi este o comentário e imagino que Jan vá tarde. De qualquer modo podes enviar me um e-mail para lindaghdal@gmail.com e esclareço te tudo se ainda for a tempo. Um beijinho. Linda

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